Sou paisagens – Hábitos de morar

Paisagens da cidade

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem  alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

 

Atento ao que sou e vejo,


Torno-me eles e não eu.


Cada meu sonho ou desejo


É do que nasce e não meu.


Sou minha própria paisagem;


Assisto à minha passagem,


Diverso, móbil e só,


Não sei sentir-me onde estou.

 

Por isso, alheio, vou lendo


Como páginas, meu ser.


O que segue não prevendo,


O que passou a esquecer.


Noto à margem do que li


O que julguei que senti.


Releio e digo :  “Fui  eu ?”


Deus sabe, porque o escreveu.

 

(Não sei quantas almas tenho, Fernando Pessoa)

 

Enquanto estava pensando como deve ser morar em um apartamento, me veio à mente um trecho da poesia de Fernando Pessoa, intitulada “Não sei quantas almas tenho”. O poema trata das mudanças as quais estamos sujeitos durante nossa vida. E de tanto carregamos, nos confundimos com nossa própria paisagem. Através de suas palavras, fica claro para mim o fato de sermos o que vemos, o que presenciamos, o que experimentamos. Somos nossa própria paisagem. Com estas reflexões diante de mim, entendo que habitar um apartamento é acordar diariamente com novas paisagens nos espreitando pelas janelas.

Durante toda a minha vida, morei em uma casa térrea. Minha paisagem a partir das janelas era o jardim e o quintal, meu horizonte, os muros. Viver em uma casa,  segundo os costumes brasileiros, com limites bem definidos, através de muros altos,  nos dá uma dimensão bem precisa do nosso mundo particular e de todo o resto do universo que fica lá fora quando os portões se fecham.

Morar em um apartamento, no quarto andar, tem sido uma experiência inteiramente nova para mim. Fui privada de um jardim só meu, mas em compensação, ganhei um vasto horizonte para contemplar. Neste período de mudança de habitar, dentro de meus novos e poucos metros quadrados de privacidade, já me vejo imersa em novas e diversas paisagens. Me sinto como uma intrometida, que não foi convidada a apreciar a vista,  mas que a tem por direito adquirido.

A noção de coletividade, a princípio, fica muito mais evidente, e o exterior desconhecido me invade a todo instante através das janelas, fisicamente tão longe, embora sensorialmente bem mais perto de mim, antes, tão acostumada, com a monotonia segura dos muros do jardim.

Olhando para baixo, a alguns metros de distância, vejo as áreas comuns do prédio. Os carros entram e saem do estacionamento, anunciando o transcurso do dia em afazeres. Para além dos portões, agora visível ao meu olhar, senhorinhas nas calçadas vigiando as crianças ariscas que rodopiam em suas bicicletas, noticiam a rotina da vida e a ingenuidade infante.

Se elevo ainda mais o ângulo de visão, vislumbro a cidade, desafiadora a se transformar, estranhamente me convidando a ficar parada, contemplando-a, ao mesmo tempo em que após um filme de pensamentos que invadem minha mente, me impele a usar bem o pouco tempo que tenho. É um frenesi velado, pois aqui do alto, a cidade parece passiva, devorando tranquilamente os espaços. Uma calmaria que somente é desmascarada se a encaro diariamente em minhas idas às janelas. E, como em um vídeo em  “time lapse”, vejo o movimento do tempo que ficou guardado na memória, transformando a cidade e a mim em novas paisagens.

Meu apartamento me presentou com belas vistas de Maceió. Do alto do Pinheiro,  velejo no mar da praia da Avenida, embarco em navios ancorados no Porto, ansiando por viagens a lugares desconhecidos. Se olho em outra direção, de outra fachada que meu apartamento participa, vejo relances da lagoa Mundaú, um cenário que me seduz e me convida a flutuar em sonhos muito meus. Tenho a alegria até de ouvir o apito do trem, me chamando, me chamando, me chamando…. Mas se acordo de minhas paisagens oníricas e me apego ao concreto, os detalhes me trazem à realidades bem alagoanas e, a paisagem entristece um pouquinho mais o meu ser.

A vida em um apartamento se apresenta com uma duplicidade de sentidos. Ao mesmo tempo em que estou mais longe da terra, ganho nas alturas novas paisagens todos os dias. Mesmo um pouco mais distante, estou, de certa forma, mais perto do mundo. Se, por um instante, eu ousar olhar pela janela, enriqueço, portanto, o meu ser, meu próprio mundo. E não será difícil querer olhar para fora, pois é lá que nos encontraremos, é nas paisagens que seremos nós mesmos.

 

 

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4 comments on “Sou paisagens – Hábitos de morar

  1. Airton omena Jr says:

    Coisa linda! Parabéns minha artista! Saudade e obrigado! E se espalhe… cada vez mais… c é vertical e horizontal!

  2. CÉLIO says:

    Lindo Vanine, seu Texto. Bela reflexão. Realmente você é uma Iluminada.