Melhor mesmo é estar disposto a aprender – Parte 2

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Olá Pessoal,

Esta é a segunda parte da minha entrevista com a Poeta Arriete Vilela em seu espaço Porque Hoje é Sábado no Jornal Gazeta de Alagoas, em que fui convidada a tecer algumas reflexões a partir de frases de importantes escritores.

A entrevista foi publicada no jornal de sábado, 13 de dezembro de 2014. Parte da entrevista também está disponível no site da Gazeta de Alagoas.

O registro desse momento especial aqui no site foi dividido em dois posts. Se você ainda não leu o primeiro post, pode encontrá-lo aqui.

Continuemos, então, com a entrevista:

“Você não encontra a paz evitando a vida”? (Virgínia Woolf)

Como evitar a vida? Para evitá-la, só vejo a possibilidade da “não vida”, do desistir, da depressão, da morte. Certamente a paz não está entre tais alternativas. A vida acontece. E ao pensar na vida, me vem à mente as palavras de Gonzaguinha, “Somos nós que fazemos a vida/ Como der, ou puder, ou quiser,/ Sempre desejada por mais que esteja errada,/ Ninguém quer a morte, só saúde e sorte”.
Para mim, encontramos a paz quando nós sentimos satisfeitos com nossas atitudes, quando vencemos os combates diários, enfrentando nossos medos e angústias para realizar nossas metas e sentir que fizemos o melhor possível para alcançar os nossos objetivos. Se a vida é “luta e prazer”, não há como fugir, é preciso ir até o fim, inventando caminhos de felicidade em meio aos desafios.

Maceió, 11 de dezembro de 2014. Foto: Ailton Cruz para Gazeta de Alagoas

Maceió, 11 de dezembro de 2014. Foto: Ailton Cruz para Gazeta de Alagoas

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem…”? (Guimarães Rosa)

Na formação em Arquitetura, estudamos alguns princípios que orientam a organização de recursos visuais de maneira que eles possam ser percebidos em um todo ordenado e harmônico, são os chamados Princípios de Ordem. Dentre eles, os que mais me recordo são o ritmo e a repetição. Para mim, estes dois são mais marcantes porque eles ultrapassam o estudo da forma, sendo evidentes em tudo na vida. É a partir de movimentos repetitivos e ritmados que a natureza se constitui, a respiração ocorre, o nosso coração bombeia o sangue, a nossa rotina é organizada e a vida segue seu curso. A partir deste processo, criamos freqüências com momentos de picos e vales, de tensão e relaxamento. Isso também ocorre na música ou no cinema. É igualmente desinteressante, assistir um filme cujo o enredo é feito de uma cena de ação atrás da outra, com explosões sem cessar ou que contenha uma história com dias inteiramente iguais, isento de um momento de emoção que seja. O que a vida não suporta é a mesmice. A vida é cíclica e demanda momentos de calmaria, que funcionem como uma recuperação para podermos estar preparados para os períodos mais enérgicos. Nesse ponto, talvez o que ela exija da gente seja compreensão, para perceber a fugacidade dos momentos e para saber doar-se com intensidade a cada uma das fases, tanto as de sossego como as de inquietude.

“Deus me torturou a vida inteira” (Fiódor Dostoiévski)

Acredito que a maioria dos escritores possui uma mente questionadora quanto aos valores preestabelecidos na sociedade em que vivem e utilizam suas criações literárias para extravasar tais sentimentos. Como diz uma interessante personagem, na obra “Os irmãos Karamázov”, “infelizmente, a verdade quase nunca é espirituosa”. Nesse sentido, a escrita, assim como outras expressões artísticas, aparece como denúncia das contradições humanas, como escape da realidade crua, um anteparo para o viver.
Dostoiévski, romancista russo e um dos maiores nomes da literatura mundial, tem em sua biografia, de uma maneira conflituosa, a forte presença da religião. Muitos de seus personagens retratam uma vida marcada pela culpa e pelo sofrimento de não conseguir acreditar plenamente em um Deus, se a todo instante os fatos aparecem para por à prova toda a fé. Como seguir no caminho da crença se o mundo faz doer a carne e a razão? E dói mesmo, é angustiante duvidar do que está posto como certo.
Mas de uma coisa não tenho dúvida: a culpa continuará torturando nossas mentes diante da necessidade imposta de se encaixar a todo custo nos padrões oficiais da fé. Viver, por si só, é o maior desafio que enfrentaremos. Mas não é fundamentando o sofrimento na vontade divina que transformaremos o real em um lugar melhor. Se há um Deus, ele não pode justificar guerras, misérias e devastações. Se há um Deus, para mim, ele deve corresponder a um ser de amor, que se manifesta quando conseguimos olhar o outro, sem qualquer preconceito e exercemos a compaixão. Ele provavelmente deve estar no meio de um abraço, dentro de um aperto de mão, passeando na troca de olhares, habitando onde somos mais humanos: no “entre nós”.

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