Melhor mesmo é estar disposto a aprender – Parte 1

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Olá Pessoal,

no final do ano passado tive o prazer de conversar com a Poeta Arriete Vilela em seu espaço Porque    Hoje é Sábado no Jornal Gazeta de Alagoas, em que fui convidada a tecer algumas reflexões a partir de   frases de importantes escritores. Agradeço imensamente à Arriete pela oportunidade, foi um desafio escrever para ela e fiquei muito feliz com resultado.

A entrevista foi publicada no jornal de sábado, 13 de dezembro de 2014. Parte da entrevista também está disponível no site da Gazeta de Alagoas.

Para registrar esse momento especial, reproduzo aqui no Vanine Tips as minhas respostas. Como foram seis as frases comentadas, irei dividí-las em dois posts, certo?

Vamos às perguntas:

“É um erro ter razão cedo demais”? (Marguerite Yourcenar)

Ao ler esta frase, recordo-me das diversas experiências de pesquisa que tenho tido em minha vida acadêmica. Nas investigações de caráter científico, somos levados a questionar afirmações, duvidar de práticas estabelecidas, testar teorias. Se não há dúvida, não há tese, e, portanto, não há construção do conhecimento. E bem assim é tudo na vida, uma corrida dialética, em que, entre erros e acertos, assertivas e negativas, propagamos movimento e encontramos as nossas verdades. Não acredito que seja muito sensato, dizer-se “sabedor das coisas” de imediato. O melhor mesmo é estar disposto a aprender, a sorver o que há de novo a cada dia e experimentar o sabor da novidade. Quando não sabemos, há um mundo todo de aprendizado para nos preencher, há uma imensidão de possibilidades a nossa frente, pronta para nos moldar nas pessoas que seremos no futuro. Quando temos razão cedo demais, corremos o risco de cairmos na monotonia e perdermos todo o encanto da caminhada humana.

“Quem de seus males fala, alívio já desfruta”? (Corneille)

Considero que a capacidade de externar os sentimentos humanos através das palavras, de maneira oral ou escrita, seja uma das maiores dádivas que possuímos.
Dizer do mal que sentimos consiste em arrancá-lo do pensamento e, ao transformá-lo em sons ou texto, damos à dor mais concretude, reconhecemos que ela existe. Está dado o primeiro passo para curar-se. Se a dor é real e eu me escuto ao dizê-la, é possível que eu a submeta a um processo analítico e, a partir de então, possa compreendê-la e definir a melhor forma de lidar com ela. E se neste percurso, há um outro que me escuta, o processo pode ser reforçado. Para isto, deve se estabelecer uma relação entre aquele que fala de sua dor e aquele que está disposto a ouvir. Isto pode acontecer entre amigos, entre pais e filhos ou mesmo entre desconhecidos.
É preciso, no entanto, considerar que muitas vezes, somos incapazes de falar dos nossos sofrimentos e o progresso da melhora pode estar em compreender também aquilo que é por nós silenciado, de maneira inconsciente. Nestes casos, a fala continua a ser o caminho para a cura, mas a escuta precisa ser mais cautelosa. Esta consiste na condição fundamental do processo psicanalítico, em que a escuta do analista está para além da comunicação usual e propõe que o analisando ao falar de si, possa acessar o seu inconsciente, trazendo à tona também o não dito, o que é externado apenas por meio de camuflagens, como nos sonhos, nos chistes, nos lapsos. Desta maneira, ao dar voz ao eu consciente e inconsciente, podemos deslocar nossas dores e resignificá-las de modo que seja possível viver melhor, sem ser esmagado pelo sofrimento.

Maceió, 11 de dezembro de 2014.  Foto: Ailton Cruz para Gazeta de Alagoas

Maceió, 11 de dezembro de 2014. Foto: Ailton Cruz para Gazeta de Alagoas

“Ajusto-me a mim, não ao mundo”? (Anaïs Nin)

Se analisarmos esta citação como um imperativo – devo ajustar-me a mim e não ao mundo – observaremos que ela contém um dos conceitos mais difundidos nos dias atuais, sendo ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de seguir. Ele está estampado nas frases de efeito das peças publicitárias e nas redes sociais. Em tais mídias, prega-se a autenticidade, que devemos assumir nossa personalidade única e “ser o que queremos ser” independentemente do que os “os outros pensem”. Ironicamente, a ideia de sermos únicos nos é amplamente permitida se, e apenas se, nos encaixamos dentro das formas de viver, dos estilos e dos padrões sociais estabelecidos. Desta forma, ajustar-se a si mesmo e não ao mundo é ser capaz de assumir-se e libertar-se dos grilhões dos modelos concebidos pela sociedade e passar a viver da maneira que mais nos deixe felizes.
Por outro lado, se tomarmos a referida citação como uma constatação, somos levados a compreendê-la sob um novo ponto e vista. Não é ao mundo que eu me ajusto, e sim a mim mesmo. Percebo então, que sou prisioneiro de mim, que eu mesmo construí conceitos que me orientam e me conduzem para que eu habite no mundo. Na verdade, não há um mundo, e sim, vários mundos particulares, em cada ser nele contido. Se assim o é, sou meu único inimigo que me impede de conquistar meus desejos nesta vida.
Entendo a frase sob a segunda perspectiva apresentada. Tenho um querido professor que sempre diz que salvar o mundo inteiro é um fardo enorme, impossível para nós e que, se cada um conseguir salvar a si mesmo, já terá alcançado um grande feito. Bem, se temos um universo inteiro dentro de nós, talvez, salvar a si mesmo seja o suficiente.

Continua…

Leia a parte 2.

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