1984 e sua vida vigiada

1401616_48842415

Olá pessoal,

Este post inaugura a sessão de resenhas literárias do blog. Nesta sessão, pretendo apresentar livros de gêneros e estilos diversos com os quais tenho dividido muitas horas agradáveis de meus dias. Espero que este espaço proporcione debates interessantes sobre Literatura e fiquem à vontade para opinar e sugerir obras para discutirmos aqui no blog!

O primeiro livro que trago para discussão é um clássico da literatura do século XX, o livro intitulado 1984, escrito por George Orwell (famoso pseudônimo de Eric Arthur Blair) no ano de 1948. Sim! Há uma teoria de que o autor escolheu o futuro no ano de 1984, invertendo os números do ano em que escreveu o livro. O livro que  li foi uma edição especial, lançada exatamente no ano de 1984. Ao folhear as primeiras páginas, fiquei imaginado o que os leitores da época pensaram ao ler sobre o futuro alternativo proposto para aquela data, não muito distante do nosso presente, como veremos.

1984_1288703131P

Nesta obra, o autor apresenta um futuro distópico que ocorre provavelmente no ano de 1984 – digo provavelmente porque nada pode ser afirmado com certeza na sociedade criada por Orwell – no qual, após uma catastrófica  guerra atômica, uma nova ordem mundial é instalada dividindo todas as regiões do planeta em três grandes superpotências intercontinentais: a Oceania,  a Eurásia e a Lestásia. Estes três grandes estados constituem vértices de um triângulo em conflito constante, onde a Oceania encontra-se no topo e as outras duas potências alternam-se na posição de aliada e de inimiga, dependendo dos interesses da classe detentora do poder, ou seja, do Partido.

A história se passa em Londres, parte da “Oceania” que é governada por um sistema totalitário de opressão e controle extremo dos indivíduos.  O Partido é o grande dominador da sociedade, personificado na figura do “Grande Irmão” (Big  Brother), a quem todos devem obediência e amor incondicional.  Os cidadãos, dividem-se em membros do Partido Interno, uma pequena elite com algumas regalias, e do Partido Externo, uma espécie de burguesia que trabalha dos Ministérios. Estes vivem em uma rotina rígida de afazeres e são incessantemente vigiados onde quer que estejam. Em todos os ambientes, no trabalho, em suas moradias ou nos espaços públicos estão instalados equipamentos chamados teletelas, um tipo de televisão que emite comunicados e propagandas do Partido ao mesmo tempo em que transmite a filmagem em tempo real do lugar em que se situam. Não existe a noção de privacidade. Com suas intimidades devassadas, as pessoas são proibidas de pensar ou agir em desconformidade com os ideais do Grande Irmão. Não há individualidade ou qualquer espécie de luxo, todos, homens e mulheres, se vestem da mesma maneira e tem os alimentos e bebidas racionados. Qualquer espécie de prazer ou sentimento é inibido entre os cidadãos.  Todas as emoções são canalizadas em forma de ódio contra os estados inimigos e de devoção ao Partido. A família não mais existe como a instituição que conhecemos. As crianças são, desde cedo, educadas a denunciar qualquer pessoa, inclusive os próprios pais, caso estes ferissem a moral ou os ideais do IngSoc (Socialismo Inglês), a ideologia do Governo.

O IngSoc criou uma logística de funcionamento que excluía qualquer forma de realidade contrária a sua, e literalmente reescrevia a história e modificava o passado, de maneira que os fatos estivessem sempre a favor do sistema. Através do trabalho do Ministério da Verdade, todos os registros podiam ser apagados e refeitos e os acontecimentos modificados,  a fim de manter a coerência e a unidade do Partido. Datas eram adulteradas, monumentos tinham seus nomes transformados, pessoas tinham suas vidas exterminadas da história. Desta maneira todos eram condicionados a acreditar que a única verdade possível era a àquela que apregoava a dominação e soberania do Partido.

Esta era a função do protagonista do livro. Winston Smith trabalhava no Ministério da Verdade alterando dados históricos em prol da credibilidade  do Sistema. Ele nos apresenta conceitos importantes para a manutenção desta ordem social. O primeiro deles é a Novilíngua, o novo idioma que fora desenvolvido com a menor quantidade de palavras possível, a fim de evitar o pensamento, a argumentação e a elaboração de ideias pelas pessoas. A cada edição do dicionário, a nova língua inglesa eliminava o uso de sinônimos, pois partia do princípios de que não havia necessidade de mais de uma palavra para um mesmo significado. Acabou também por extinguir o uso de antônimos, utilizando do segundo conceito fundamental do livro, o Duplipensar. Uma única palavra deveria conter significados opostos, contemplando ideias contraditórias que se excluem mutuamente. A partir deste conceito, controlava-se a realidade, que era reconstruída e sobreposta à memória. O duplipensar era, nas palavras de Winston, “ter consciência  de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas”. Deste modo, era impossível defender uma verdade diferente da verdade imposta pelo Partido, uma vez que este, de maneira totalitária era o grande guardião da Democracia. Os três lemas do Partido eram: “Guerra é Paz; Liberdade é escravidão; Ignorância é Força”.

A grande massa, conhecida como os proles, vivia totalmente alheia ao sistema. Banido da sociedade, em condição de pobreza extrema nos subúrbios o proletariado era a força produtiva alienada, que consumia as mídias produzidas pelo próprio Partido, em formas de músicas ordinárias e novelas banais, que tinham o objetivo de torná-los cada vez mais estúpidos. O povo “idiotizado” e em plena ignorância, esquecia de sua força contra o sistema, fortalecendo-o cada vez mais, e, poupando, inclusive os esforços de vigia e sentinela sobre si.

Winston encontra-se em um dilema pessoal ao perceber-se tendo emoções e pensamentos contrários aos ideais do Partido.  Não consegue assimilar as regras estabelecidas sem questioná-las e imagina que no passado a sociedade teria sido diferente, com maior liberdade de ações e pensamentos. Tenta evitar demonstrar qualquer reação de insatisfação, mas insiste acreditar em uma “Fraternidade” que está  organizando uma revolução para boicotar o sistema e banir o Partido. Tem um grande interesse nos Proles, crendo que estes um dia irão se rebelar

Amedrontado em seu isolamento com pensamentos transgressores, Winston acaba se apaixonando por Julia, também membro do Partido Externo, que se intitula uma rebelde, mas que tem como causa, apenas o prazer de burlar as regras do partido, com pequenas infrações, sem almejar qualquer mudança de ordem social. Fortalecido com a juventude e o aparente destemor de Julia, Winston divide com ela suas ideias de revolução e busca desesperadamente juntar-se àqueles que iriam um dia conduzir a Revolução.

1984 é um importante romance político que nos leva, acima de tudo, a refletir sobre nossa própria condição social.  Influenciado pelos sistemas totalitários insurgentes na época, Orwell foi capaz de antever as perversidades existentes no sistema econômico e social em que nos encontramos. As guerras que justificam a manutenção da paz de determinadas nações, a formas de superexposição de nossas vidas através das novas tecnologias, a vulgarização da cultura e a exploração das massas pelos meios de comunicação, a alienação da coletividade que se encontra cada vez mais “emburrecida”, em função de um sistema educacional precário fornecido pelo governo, são exemplos gritantes da subjugação da sociedade a um sistema invisível que nos controla e nos conduz independentemente de nossa vontade.

A distopia apresentada parece estar mais perto de nós do que imaginamos. Sem nos darmos conta, passivamente, acabamos sendo levados por uma enxurrada de ideologias e não é preciso estar sob um domínio totalitarista para isso acontecer. Trata-se de um verdadeiro alerta, um “chacoalhar” do espírito humano, um ultimato para nunca abrirmos mão da nossa liberdade de pensar.

Acredito que todos deveriam ler este livro. Para quem se interessou e quer saber um pouco mais sobre a obra, indico um programa do Nerdcast bem interessante e enriquecedor (e, claro, bem divertido de ouvir) sobre 1984. Segue o link: http://jovemnerd.ig.com.br/nerdcast/nerdcast-229-duplipensamentos-sobre-1984/

E aí? Interessado em ler 1984? Já leu e tem alguma opinião para compartilhar? Deixe seus comentários e até o próximo post!

Leave a Reply

Your email address will not be published.Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*

7 comments on “1984 e sua vida vigiada

  1. Ulysses says:

    Oi prima! Amei sua resenha. Eu tô doido para ler esse romance. Minha professora falou tanto deste livro, que quando pesquisei um pouco sobre ele achei incrível. Não dá pra duvidar da semelhança das criações de Orwell e da situação da America Latina hoje. Cristina Kirchner, a velha, apelidada pelo presidente do Uruguai , o gaga Mijuca, já flertou com essa história de mudar a história. Eu também fiquei louco para ler uma outra obra de Orwell, chamada A Revolução dos Bichos. Tudo isso depois de ver um vídeo de um vlog que sigo, muito bom de uma moça chamada Tatiana: http://www.youtube.com/watch?v=6EJ06_N-vy8
    Esperando a próxima resenha…… abraço!

    • Vanine Vanine Tips says:

      Obrigada Ulysses! Realmente a leitura vale muito a pena. Podemos sim encontrar exemplos desta sociedade deturpada em vários lugares hoje em dia, seja na política de nossos vizinhos latinos, seja bem debaixo do nosso nariz, observando a política nacional ou simplesmente navegando nas redes sociais. É mesmo alarmante… Minha próxima leitura de Orwell será a Revolução dos Bichos, comecei essa leitura há algum tempo atrás, mas não conclui. Adorei a indicação do Vlog Tiny Little Things, já me inscrevi!

  2. David says:

    Ótima resenha! Texto muito bem escrito! Sobre 1984 só acrescento os filmes inspirados na obra, como o próprio “1984”, “V de Vingança” e “Filhos da Esperança”. Outro livro com temática semelhante é o “Admirável Mundo Novo” que, segundo alguns, é ainda mais preciso que 1984 no tocante à previsão de um futuro distópico.
    Finalmente, o livro, para mim, é de tragédia; por mostrar que a esperança, o desejo de felicidade e o espírito humano são finalmente obliterados pelas botas dos que governam o sistema.
    E isso acontece hoje – quando vemos em nossas “teletelas” pessoas estranhas com a privacidade exposta, lutando como animais em atividades depreciativas. Ironia vemos que tal programa utiliza como nome um dos maiores ícones de opressão da literatura moderna. E as pessoas o amam.

    • Vanine Vanine Tips says:

      Oi David! Obrigada! Descobri a existência do filme 1984 escutando o Nerdcast e fiquei bem interessada em assistir. Preciso rever V de Vingança!! A leitura me trouxe novas perspectivas, despertando o olhar para várias questões destes filmes… Orwell influenciou várias obras literárias e cinematográficas posteriores. Além dos filmes que você mencionou, poderíamos citar também o filme Laranja Mecânica que trás toda essa discussão sobre o controle social através de um governo totalitário e violento.
      Realmente, o livro nos deixa um pouco desolados, com essa sensação de tragédia iminente no ar… Enquanto isso, a maioria da pessoas, aceita de bom grado a manipulação social e cultural, pedindo bis para as edições cada vez mais devassadas do Big Brother…

  3. CÉLIO says:

    Oi Vanine, Li este livro há mais de 10 anos e realmente 1984, além de um livro de política, não deixa de ser uma metáfora da realidade que infelizmente estamos construindo. Veja o que já está acontecendo na atualidade: invasão de privacidade; avanços tecnológicos que propiciam vigilância total; manipulação da memória histórica dos povos; e até guerras que dizem: “é para assegurar a paz”. Até onde a ciência vai chegar e até onde um governo poderá usar a tecnologia para manter a paz? Na direção que estamos indo não vislumbro quaisquer possibilidades de defesa para o ser humano. Antes de ver a dica do Ulisses já estava pensando em deixar esta sugestão para voce comentar “A Revolução dos Bichos”.
    Beijão

    • Vanine Vanine Tips says:

      Sim! A Revolução dos Bichos já está em. Minha lista de próximas leituras! … 1984 é realmente trágico, mas sobre a semelhança com a nossa realidade, fiquei pensando… Enquanto existirem pessoas que se espantem e se indignem com todos estes exemplos citados, acredito que o espírito humano esteja a salvo. Assim, a submissão não será de todo verdadeira…